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GUERRA CIVIL


A massificação da violência, seja através da televisão ou dos jornais, gera em alguns indiferenças proporcionadas pela anestesia da propaganda de que tudo está melhor e que nada se pode fazer mais do que está sendo feito.

Em outros gera a certeza de que tudo está errado e que, realmente, vivemos num País em plena guerra civil.

Louco! Poderão dizer alguns. Alarmista! Outros dirão. E outros poderão até verberar palavras que não gostaria de escrever.

Se eu for louco, não estou sozinho neste campo. É que, após começar a ler a obra de Luis Mir, intitulada, Guerra Civil – Estado e Trauma, pude ter a grata satisfação acadêmica de poder justificar minhas palavras com o belíssimo trabalho do notável escritor.

Todavia, com a leitura da obra o incômodo dantes caminha para uma indignação da realidade de nosso País, quanto à violência e os desajustes sociais que a impulsionam, aliás, creio que indignação seja de todos nós.

Escreve ele dizendo que guerra civil é o Engenho da história, alimenta-se da vontade de poderio convertido, coletivamente, na aspiração por civilizar. Quando rege nossos atos, libera forças de efeitos desconhecidos (Luis Mir, Guerra Civil-Estado e Trauma, Ed. Geração, 2004).

Acredito que seja óbvio que o problema da violência deve ser combatido na sua base geradora. Esta base que a faz existir na violenta proporção vista é a miséria, leia-se, falta de educação, saúde, emprego e os outros direitos constitucionais fundamentadores da República, pois, esta, como Estado Democrático de Direito, é obrigada a primar pela dignidade da pessoa humana.

A violência crescente e sem controle é gerada pela falta de educação, saúde, emprego. Ou seja, ausente a dignidade da pessoa humana numa sociedade gera a tendência de que tal mazela não deixe de existir, ao contrário, aumente proporcionalmente.

Somente libertando o povo brasileiro da miséria, abrindo os corredores de acesso da etnia dominada e segregada nas “favelas campo de concentração” (Luis Mir) para patamares perto (nem digo igual) donde se encontra estabilizada a etnia dominante e segregadora, diminuindo as diferenças existentes, é que a violência tenderá a uma diminuição progressiva nunca vista antes.

Contudo, para isso precisamos compreender que nossa idoneidade para resolver o conflito por meio de mecanismos reguladores, tais como tribunais ou estruturas sociais, fracassou(Luis Mir).

Precisamos de uma nova ordem constitucional para pragmatizar os contratos sociais com o mesmo afinco que cumprimos os contratos bancários internacionais. Com o mesmo afinco que se edita medidas provisórias, que se edite a ordem social.

Baixando os índices sociais negativos, gerando mais emprego e renda, gerindo a máquina em prol da educação, saúde, moradia, emprego e renda, não precisaremos mais assistir na televisão as cenas da nossa guerra civil matando inocentes.

No entanto, não se diga que a necessária paz (social) não é possível, pois, é tão possível quanto barata e fácil (Luis Mir).

Para isso, como bem coloca o autor, é preciso se despojar dos valores preconcebidos, atalhar os dogmas e aceitar que a paz é boa.

Não é possível mais conviver com a propaganda de que a solução para a violência seja simplesmente armar e equipar o aparelho policial repressivo do Estado. A repressão falhou e está falhando. Só faz matar e matam muitos inocentes, basta se ver as estatísticas de inocentes mortos com as balas disparadas pela polícia. Entretanto, este aparelho repressivo não é necessário para a eliminação do estado de violência e a geração da paz.

Precisamos de um choque de civilização, associado a um novo padrão de humanismo e de direitos fundamentais, e não uma investida às execuções sumárias. Mas um aprofundamento amplo e não só utilitarista e de curto prazo da ciência, da educação, do trabalho, da saúde, da moradia e da renda, essenciais a uma nova sociedade e à própria cidadania (Luis Mir, mesma obra).

Dentro do esforço comum para acabarmos com a guerra civil definida lapidarmente pelo autor, se insere os Direitos Humanos, patrimônio particular e coletivo. Esses grandes valores humanitários precisam de muito oxigênio, e, rápido.

É inadmissível que no começo do século XXI ainda escutemos os mesmos princípios da educação sanitária da virada do século XIX para o século XX, transmitidos via satélite (sic): água sanitária, esgoto e mãos limpas (Luis Mir).

Se os caixões fossem transparentes, os túmulos translúcidos, as gavetas dos institutos médico-legais abertas e ao ar livre, não teríamos como ignorar a forma humana da morte. Se as vítimas da guerra ficassem lado a lado, seriam centenas de quilômetros de corpos estendidos que deveriam estar vivos, de pé. E se empilhados, a montanha da morte teria uma base e uma altura de muitas centenas de metros (Luis Mir).

Para a “serpente parar de por ovos com luxúria” Luis Mir deu a solução: Através da terceira jornada médica, o autor da obra em comento e seus companheiros na empreitada (1999), decidiram que a sociedade brasileira tomaria conhecimento do gasto humano e médico da guerra civil. O fim desta jornada foi em Brasília, em dezembro de 2000. Foram colocadas 130.000 cruzes na Esplanada dos Ministérios, simbolizando as vítimas da carnificina brasileira que não seriam sepultadas com infâmia e esquecimento. Na oportunidade ele se encontrou com o Ministro Chefe da Casa Civil da Presidência da República, Pedro Parente. O Ministro o indagou o que se poderia fazer. Luis Mir o respondeu: O Estado brasileiro teria de revogar a ordem de matar e, a partir daí, os brasileiros fariam o resto.

Ao meu sentir, precisamos impor, de uma vez por todas e urgentemente, uma nova ordem e, esta ordem deve ser a social em prol do povo brasileiro, pois, é deste que emana todo poder e toda força.