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Nem o povo, nem a classe dos advogados podem ficar inertes
e omissos em relação à proposta de
alteração da lei de combate ao crime de lavagem
de dinheiro, que contém em seu bojo, a quebra do
sigilo profissional do advogado.
Em
que pese renomadas opiniões de alguns estudiosos
do direito que, o projeto ameaça violar a segurança
jurídica e alguns direitos individuais considerados
até aqui como base de sustentação do
exercício da profissão do advogado, o governo
vai enviar ao congresso a proposta ainda este mês.
Para
tantos outros Doutores da lei, a legislação
será ineficaz.
No
entanto, existem juristas que dizem que, se bem elaborada
não será declarada inconstitucional, nem ferirá
de morte os princípios constitucionais afeitos.
Ora,
numa democracia deveria ser assegurado ao cidadão
a ampla defesa, e, para isso, o cliente deve continuar a
enxergar no seu advogado, que é indispensável
à administração da justiça,
seu porto seguro, seu lastro e segurança naquilo
que lhe confiar.
Sem
isso, ao meu sentir, não será possível
o advogado exercitar seu múnus plenamente, a ponto
de fazer valer o sagrado direito à ampla defesa.
Para
estes que defendem a idéia desta possibilidade, que
considero esdrúxula, poderíamos receitar a
leitura do livro O Processo, de Franz Kafka.
O
professor Ives Gandra da Silva Martins, diz o seguinte a
respeito da quebra do sigilo profissional do advogado: “De
manifesta inconstitucionalidade é a nova tentativa
governamental de controlar a sociedade e restringir direitos,
pelo balão de ensaio lançado, objetivando
obrigar os advogados a denunciar operações
suspeitas de seus clientes”.
Analisando
por um outro prisma, me parece também salutar dizer
que, o governo pretende transferir para o advogado uma obrigação
que é sua. Pretende fazer do advogado um delator
(dedo duro, como é conhecido no jargão popular),
um fiscal da receita, um policial.
Neste
passo é que, encontrei respaldo para o que digo nas
palavras do Presidente da Ordem dos Advogados, Seccional
de São Paulo, Dr Luis Flávio Borges D’Urso:
“em hipótese alguma o poder público
deve transferir aos advogados ou a qualquer outro cidadão
uma competência de fiscalização que
é sua. Além disso, o País conta com
outros mecanismos e instituições que atuam
no combate aos crimes de lavagem de dinheiro, como o Banco
do Brasil, a Polícia Federal, a Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI) e o Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (COAF)”.
Se
até aqui vocês já estão de boca
aberta com mais essa do governo democrático de Lula,
saiba que ele pretende também quebrar o sigilo profissional
do psicólogo. É isso mesmo! Aquele profissional
que você procura para derramar seus mais íntimos
segredos, poderá ser forçado, se a tentativa
do governo Lula se tornar vitoriosa, a lhe denunciar e dizer
tudo aquilo que você disso ao mesmo que possa ser
considerado “suspeito”.
Será
que vai existir aí alguém com peito para dizer
tudinho mesmo? Ou, as sessões com o psicólogo
vão ser mais um discurso planejado e aritmético
como os que são feitos para se suprimir os preceitos
basilares de uma sociedade pluralista, como o atual governo
vem fazendo?
“O
que me preocupa, nas diversas sinalizações
emanadas dos bastidores do governo, é que se pretende
controlar tudo, a saber: o judiciário(controle externo),
o Ministério Público (controle externo), a
advocacia (revelação de segredos profissionais),
a imprensa (controle da atividade pelo Conselho Federal
de Jornalismo), a produção audiovisual (controle
semelhante), as agências reguladoras (tirando-lhes
autonomia), a Universidade privada (estatizando vagas),
cargos públicos (muitas vezes preenchidos sem concurso),
obras públicas (muitas vezes realizadas sem licitação),
num caminho pouco democrático para uma sociedade
pluralista, como é a brasileira” (Ives Gandra,
Consulex, nº187).
Para
Michel Temer, que além de Deputado é um jurista,
“A tentativa de romper o sigilo profissional do advogado
e do psicólogo constitui agressão inominável
às liberdades individuais”.
Com
tudo isso, espero que não estejamos caminhando em
“direção que possibilite o autoritarismo.”
(Michel Temer,Consulex, nº187).
E,
para finalizar, senão o editor me corta, finalizo
as considerações acerca do tema, transcrevendo
Michel Temer: “Por isso, e sempre como alerta, mais
uma lembrança, agora pelo poema de Eduardo Alves
da Costa No caminho com Maikovski, em que, depois de dizer
que “eles” colheram uma flor do nosso jardim,
“sem dizermos nada” pisaram nas flores e mataram
o nosso cão, “sem dizermos nada”, arrancam
a nossa voz. E a palavra final é de amargura: “Porque
não dissemos nada, já não podemos dizer
nada.”
Portanto,
vamos mostrar ao nosso Presidente que não estamos
satisfeitos com esta iniciativa, antes que ela vire realidade
e nada possamos fazer, a não ser, chorar no pé
do caboclo ou no muro das lamentações, só
que este é longe e custa caro chegar lá. Vamos
berrar antes e aqui.
Aristóteles
Leal, advogado, OAB/BA 12.774. |